Sexta-feira, 19 de Dezembro de 2008

MUDANÇA DE ENDEREÇO

A partir de agora estou em um novo endereço.

www.artigosemvalor.blogspot.com

Abraços e feliz natal para todos.

Quinta-feira, 18 de Dezembro de 2008

Um dia daqueles

Guilherme Palma


O despertador tocou as 05h45. O Sr. Pintieras levantou-se, sentou na beira da cama. Desligou o despertador e disse para si mesmo em voz baixa:
- Hoje vai ser um dia daqueles.
- O que disse querido? Perguntou sua esposa.
- Nada não querida.
Acordou seus filhos, tomou um banho. Depois foi tomar café, sempre pensativo. Deixou as crianças na escola e se dirigiu ao trabalho da esposa. No desembarque trocaram um beijo instantâneo. Ela o lembrou que no final de semana tinham que ir assistir a uma peça de teatro na escola. Ele concordou meneando a cabeça.
Quando chegou ao prédio do escritório em que trabalhava cumprimentou o porteiro com um aceno de mão. Passou pela sua secretária disse bom dia e depois em voz baixa:
- Hoje vai ser um dia daqueles.
A secretária perguntou:
- O que disse senhor?
- Nada não.
Passou a manhã conferindo relatórios, fazendo algumas ligações, montando planilhas. Na hora do almoço foi com seu chefe e o colega de trabalho almoçar em um restaurante. Conversaram sobre ações, Big Brother, futebol, sobre quem saiu na Playboy. Lembraram-no sobre a pelada no final de semana. Ele já ia concordando, mas lembrou-se que teria de ir ao teatro assistir uma peça dos filhos.
A tarde conferiu mais alguns relatórios, fez algumas ligações, montou algumas planilhas. Foi para uma reunião as 17h00. Depois de terminada a mesma, passou em sua sala, pegou sua pasta, seu paletó e apagou as luzes. Ao passar pela secretária, esta disse:
- Tenha uma boa noite Sr. Pintieras.
- Você também Zuricleide. Mande um abraço para sua mãe.
No caminho ouviu um cd dos Carpenters no carro. Chegando em casa brincou com seus filhos. Conferiu a tarefa deles. Jantaram. Foi para frente da TV com a esposa e os filhos. Degustou uma dose de whisky com gelo.
Depois de colocar as crianças na cama, sua esposa perguntou se não poderiam fazer amor. Ele dizia que estava meio cansado. Ela falou que tudo bem e fez alguns afagos nele. Ao examinar a expressão de tristeza em seu rosto, levantou-se pegou nas mãos dela. Foram para cama. Se amaram durante sete minutos.
Na hora de dormirem ela beijou-o no rosto e desejou uma boa noite. Ele devolveu o cumprimento, virou-se para o lado e disse em voz baixa:
- Amanhã vai ser um dia daqueles.
- O que disse querido?
- Nada não, querida.

Quarta-feira, 3 de Dezembro de 2008

Vamos liberar as drogas

Guilherme Palma

Vamos liberar as drogas. Não é minha bandeira pessoal. Não é ideologia de vida. Não as uso. Não fumo maconha. Só gosto de cerveja. Até o cigarro ficou para trás, desde a longínqua época da faculdade.
O que me incentivou a expor essa idéia que já defendo há algum tempo, foi a recente noticia de que o ator global Fabio Assunção esta internado em uma clinica para viciados. A mesma que outrora nosso querido comentarista esportivo Casagrande esteve.
Vocês vão falar, “mas Guilherme que diabos quer dizer com libere as drogas se os caras estão entrando em rota de autodestruição?” É o seguinte. Temos ai duas pessoas com “bala na agulha”, de calibre grosso. Imagine como Casagrande e Fabio Assunção agitam o mercado das drogas com seus salários absurdamente altos. E eles são apenas dois grãos de areia. Fora os famosos, temos os filhinhos de papai riquinhos que compram drogas sem parar.
Todo ano morrem milhares de pessoas vitimas do trafico de drogas. No Brasil inteiro, não só no Rio de Janeiro. É acerto de contas, brigas de gangues rivais, malucos devendo para traficantes. São filhos roubando os próprios pais para conseguirem dinheiro para as drogas. Meninas e meninas se prostituindo. São fortunas gastas com advogados, subornos a policiais, juízes, promotores corruptos, agentes penitenciários e assim vai. Mortes, mortes e mais mortes. Propinas, propinas e mais propinas.
O Rio é uma bomba relógio. A qualquer momento estoura uma guerra civil sem precedentes. A guerrilha vai tomar conta. Quem não quiser levar bala ou se sujar de sangue e tiver condições vai ter que abandonar. Vai virar terra de ninguém. E não pensem que isso vai se restringir apenas à capital Fluminense. As proporções serão gigantescas e logo se espalha e toma conta de outras grandes cidades.
Os efeitos atingem até minha cidade aqui em Londrina no norte do Paraná. Uma cidade de aproximadamente 500 mil habitantes. A média de assassinatos gira sempre em torno de 100 por ano para mais, sendo a grande parte relacionada ao trafico. Por isso que digo. Liberem as drogas. Isso vai reduzir consideravelmente o numero de mortes. O numero de traficantes. O numero de corruptos e corruptores. O nível de prostituição.
Os laboratórios de remédio irão colocar a cocaína em vidro com inscrições no rotulo do gênero indicações e contra-indicações. “Não misturar com álcool”, “não cheirar doses excessivas”, “se for dirigir não cheire”. A Souza Cruz e Philip Morris vão lançar maconha em maço. Vai vir com o famigerado recadinho “Ministério da Saúde adverte: quem fuma em excesso pode perder quantidades excessivas de neurônios”, “proibido para menores de 18 anos”, etc.
Mas sempre vai aparecer um esperto e dizer, “mas aí as pessoas vão se matar”. É claro que vão. Elas não se entopem de cachaça e cerveja e saem por ai atropelando, batendo carro, seqüestrando, dando tiro e esfaqueando os outros? Ou então tendo coma alcoólico? Então que morram de overdose.
O cigarro é proibido ter qualquer tipo de publicidade, seja pela radio, TV, outdoor, pôster do lado externo de estabelecimentos que vendem os mesmos. Vêm com avisos do Ministério da Saúde, fotos escabrosas de quem é “vitima” dos malefícios do cigarro, os espaços onde os fumantes podem fumar é cada vez mais reduzido. Mas com exceção das pessoas que convivem todo dia com um fumante, os únicos prejudicados são os próprios.
Já a bebida alcoólica não. Somos bombardeados exaustivamente com campanhas publicitárias sofríveis de cerveja. Com propagandas mostrando mulheres em trajes sumários como se viessem junto com a cerveja. Rotulando ainda a imagem da mulher como objeto de consumo – isso é assunto para outro dia. E o Maximo de aviso que vem é “se for dirigir, não beba.” É uma hipocrisia.
Vai ter overdose se cheirar 500g de cocaína? Vai ficar burro se fumar um maço de maconha por dia? Problema seu. Assim como quem quer se acabar na cachaça. E o consumo é muito maior por ser ilegal. Não é a proibição que vai impedir as pessoas de consumirem. Ela só vai fazer com que consumam de forma mais irresponsável.
Entre 1920 e 1933 nos Estados Unidos ficou proibida a venda de bebida alcoólica. Foi a chamada lei seca. Nunca se consumiu tanto álcool nos EUA quanto nesse período, proporcionalmente ao numero de habitantes da época. A máfia se fortaleceu absurdamente nessa época, devido ao contrabando e venda ilegal de bebidas alcoólicas e produção de uísque caseiro.
Vão ser gerados muitos empregos com a produção de drogas. Na área rural com plantações de folhas de coca e de maconha. Na indústria tabagista e farmacológica. Vão começar utilizar também para fins terapêuticos e medicinais. Maconha com efeitos relaxantes e problema de insônia. Cocaína como estimulante. No ramo dos cosméticos, e assim vai.
Mas se um dia liberarem as drogas não me convide para consumi-las. Alem de elas virem com muita química, conservantes, monóxido de carbono e outros ingredientes prejudiciais a saúde, a taxa tributaria vai ser muito alta e os preços vão ser exorbitantes.

Quarta-feira, 12 de Novembro de 2008

Eu não acredito

Guilherme Palma

Eu não acredito em governo de esquerda
Eu não acredito em governo voltado para o social
Eu não acredito em políticos demagogos e populistas
Eu não acredito em Hugo Chaves, Evo Morales e Fidel Castro
Eu não acredito em 80% de aprovação do governo
Eu não acredito em pesquisa de Ibope
Eu não acredito em urna eletrônica
Eu não acredito em voto obrigatório
Eu não acredito que brigamos tanto pelo direito de votar para depois votar tão errado
Eu não acredito em auto-suficiência do petróleo
Eu não acredito que não estamos em crise
Eu não acredito que não exista inflação
Eu não acredito em impostos
Eu não acredito em Tele Sena
Eu não acredito que os criminosos sofram a devida punição
Eu não acredito que possamos ir e vir
Eu não acredito em aborto
Eu não acredito em Ricardo Teixeira
Eu não acredito em Dunga
Eu não acredito na Rede Globo
Eu não acredito em Galvão Bueno
Eu não acredito em Xuxa
Eu não acredito em pegadinhas
Eu não acredito em reality show
Eu não acredito em funk carioca
Eu não acredito em bandas Emo
Eu não acredito em Pokémon, Digimon ou qualquer outro “mon”
Eu não acredito em Edir Macedo
Eu não acredito em listas das mulheres mais sexy
Eu não acredito em Paulo Coelho
Eu não acredito que não aprenderemos nunca com nossos erros
Eu não acredito em pessimistas
Eu não acredito em falta de esperança
Eu não acredito na palavra nunca
Eu nunca acreditei
E eu não acredito em pessoas incrédulas

Quarta-feira, 1 de Outubro de 2008

Sela Rum Bum Bum

Guilherme Palma
Essa história aconteceu há uns 25 anos mais ou menos, em uma cidade do Mato Grosso chamada Marilândia ou Marcelândia - sempre confundo os nomes. É uma cidade bem pequena, mas agitada, pois têm muitas fazendas. Destaca-se por ser uma região agrícola muito forte, sendo assim, têm também muitos trabalhadores temporários, bóias-frias, peões, comerciantes, viajantes, posseiros, andarilhos e assim vai. E entre essas pessoas havia um rapazinho conhecido como Baianinho, um crioulinho da Bahia, que estava trabalhando a alguns meses na cantina do seu Zeca. Ele dormia em um alojamento junto com outros trabalhadores. Um dia Baianinho recebeu uma carta dizendo que seu pai estava prestes a morrer. Como seus irmãos eram muito novos e sua mãe bem doente, ele teria que voltar para despedir do seu pai e terminar de criar seus irmãos e tocar a pequena propriedade da família.
Acontece que Baianinho não tinha dinheiro para realizar uma viagem até a Bahia. Foi aí que teve a idéia de rifar seu relógio de ouro, que ganhou de seu avô quando estava com dez anos. Ele reuniu o pessoal do alojamento, que eram em uns trinta mais ou menos, e contou sua história. Todo mundo ficou sensibilizado e comprou as rifas por R$ 10,00* cada. E no outro dia teve uma grande surpresa, pois a notícia da rifa se espalhou e vieram pessoas de toda a região para comprar.
No final das contas Baianinho acabou vendendo 1000 números de rifa, o que dava uma quantia de R$ 10.000,00*. Empolgado com esse valor que tinha nas mãos e ressentido de doar o relógio que seu avô havia lhe dado com tanto carinho, não pensou duas vezes e se mandou com o relógio. Passado uns dois anos, o pai dele já estava morto, sua mãe se tratou com o dinheiro que Baianinho trouxe e o melhor de tudo; Ele comprou novos implementos agrícolas, fertilizantes, melhorou os equipamentos do pequeno sítio de seu pai e ele teve a maior safra de sua vida, um sonho que seu pai nunca realizou, ou seja, Baianinho prosperou nos negócios.
Então, já de posse de algum dinheiro, ele resolveu ir até São Paulo comprar uma colheitadeira nova e mais moderna para seu sitio. Quando estava andando na Avenida Ibirapuera escutou alguém chamar pelo seu nome. Baianinho olhou para trás e levou um susto, era um dos peões que compraram sua rifa em Marilândia - ou Marcelândia.
Baianinho gelou, pois só pensava no calote que havia dado e que havia chegado à hora de pagar sua dívida com uma surra, ou então até com a vida, pois o peão era “casca-grossa”. Para seu alivio a conversa foi tomando outro rumo. Coisas do tipo, "como ‘cê’ tá?", "o que ‘cê’ anda fazendo?". Quando enfim, a conversa chegou ao fim e Baianinho começou a andar mais tranqüilo, foi então que o peão perguntou: _ Ô Baianinho, agora que eu me “alembrei”. Que diabo deu aquela rifa? Ele pensou bem rápido e emendou. _ Oxente, deu "Sela Rum Bum Bum".

*Na época a moeda vigente não era o Real. Valores devidamente corrigidos.

Segunda-feira, 27 de Agosto de 2007

A bicicleta de 10 cruzeiros


Guilherme Palma

Essa história aconteceu há cerca de 17 anos no Jardim San Remo em Londrina. O pequeno Guilherme, então com 10 anos, inocente ainda, sem muita noção dos perigos do mundo, não tinha nem começado a 5ª série do colégio.
Naquela época no nosso bairro a moda era o jogo de “burquinha”, ou bolinha de “gude” ou simplesmente “bulita” - dependendo da região. E o mais popular por aquelas bandas era a birosca. A birosca funcionava da seguinte forma. Eram feitos na rua ou na terra, três buracos em seqüência com a distância de dois palmos e um pulso. E um último buraco que completava um ângulo de 180º em relação ao primeiro dos três furos.
O objetivo do jogo era “rapelar” as bolinhas acertando os buracos e as outras burquinhas seguindo a seqüência e regras do jogo até ficar só a sua. Então lá estávamos em uma tarde de terça-feira jogando eu e o Boca, meu amigo. As bicicletas estacionadas atrás de nós na guia da calçada. Quando eu disse que a birosca era moda, eu quis dizer moda secundária, pois a “bike” predominava em qualquer época do ano.
Foi quando apareceu aqueles dois outros meninos querendo jogar conosco. Ficamos meio receosos, pois eles eram mais velhos e eram rostos novos ali no bairro. Mas acabamos deixando-os brincarem conosco. E assim foi a tarde inteira. Eles estavam com apenas algumas burquinhas e não pareciam dominar a arte do jogo, ganharam algumas, mais na sorte do que na habilidade, mas no final das contas nós rapelamos as bolinhas deles.
E um deles disposto a entrar de vez no circulo vicioso da burquinha, quis comprar algumas bolinhas de gude nossas para jogar mais. A ganância por apostas já domina o coletivo humano desde a puberdade. Impressionante.
Então eu falei que podia vender algumas sim. Ele me deu Cr$ 10,00 (dez cruzeiros na época, estávamos em 1990) por duas, sendo que a burquinha no bazar custava Cr$ 1,00 cada. Eu até comentei isso, mas como já passava das 6h00 o estabelecimento já estava fechado e ele queria jogar mais. Então é claro, eu aceitei de bom grado.
Jogamos de novo, e ganhei outra vez. Então foi ai que ele falou: “Vamos até minha casa lá eu pego mais dinheiro para a gente jogar mais”. Na verdade eu já estava enjoado de jogar e cansado também, e o Boca só olhando aquela cena toda meio de lado. Ele como era mais velho deve ter percebido alguma coisa por trás daquilo tudo. Mas como eu disse a ganância do ser humano era grande, e eu com a chance de ganhar uma grana em cima do “mané”, acabei concordando.
Fomos eu, o Boca, o rapaz esbanjador e o amigo dele. Eu acho que os nomes eram André e Felipe, respectivamente. Andamos umas três quadras até chegarmos na “casa” dele. Tinha um cadeado no portão. Ele tocou a campainha, chamou pela mãe umas quatro vezes, pulou o muro, tentou abrir a porta, procurou uma chave embaixo do tapete e concluiu: “Minha mãe deve ter ido ao mercado”.
Eu falei: “Que pena, deixa pr’amanhã”.
Foi ai que veio bomba. Ele falou assim: “Faz o seguinte, empresta a sua bicicleta que eu vou ali no mercado, pego a chave de casa com minha mãe e já volto”.
Eu olhei para o Boca, ele não falou nada. Olhei para o amigo dele. Nem estava ouvindo a conversa, estava pulando “Pogobol” do outro lado da rua. Alguém se lembra do pogobol? Era uma bola que ficava rodeada por um por um disco plástico e ficava com o aspecto do planeta saturno. O disco servia de base para por os pés e ai era só sair pulando.
Voltando ao drama da situação, não era nem um pouco sensato entregar minha bicicleta para ele (era uma cross light, a mais cobiçada do momento), mas como eu já havia dito sobre a ganância do homem e a inocência de uma criança de 10 anos, foi algo mais forte que o meu juízo. Sendo assim eu entreguei a “magrela”.
Não precisa nem dizer que ele sumiu com a bicicleta. Eu ainda fiquei até escurecer completamente esperando ali na rua, eu, o Boca e o Felipe. Tentamos pressionar ele para ele nos dizer quem era o outro cara, onde morava de verdade, mas ele disse que o tinha conhecido naquele mesmo dia, que nem nós. Já começava a ficar tarde e resolvi ir embora, já tentando inventar uma lorota para contar pro meu pai, nessa hora chorando um monte, por causa de medo da bronca e também por vergonha. Depois de três horas de silêncio, o Boca abriu a boca (se é que fica claro) apenas para dizer: “Que foda”.
É claro também que as estórias que contei para meu pai, não funcionaram. Ele me pressionou até eu contar direitinho o que aconteceu. Foi duro agüentar o sermão aquele dia. Não é para menos também. E eu achando o cara o maior mané. Quem era o trouxa na verdade?
Mas tem que dar um desconto, né? Eu tinha apenas 10 anos. Meu pai só falava assim: “O cara te comprou a bicicleta por dez cruzeiros”. Eu argumentava dizendo que não, que ele comprou as burquinhas por 10, pois por Cr$ 10,00 eu não entregava nunca a magrela. Olha que esperteza, não? Depois de muita discussão com meu pai e choro, eu entendi o que ele queria dizer. O “André” comprou minha confiança com Cr$ 10,00. Na minha idade era uma dinheirama na mão, aí depois ficou fácil para ele pedir emprestada a bike.
Mas nem tudo foi ruim. Eu acabei aprendendo uma lição, pelo menos. Ajudou a enfatizar o que meu pai sempre me falou sobre não ser ganancioso demais e muito menos “dinheirista” e não querer sempre ficar levando vantagem em cima dos outros. Então eu também tirei proveito desse imbróglio. Mas nada disso aliviava a dor ou mudava o fato de que eu vendi minha bicicleta por 10 cruzeiros.

Quinta-feira, 12 de Julho de 2007

Pena máxima

Guilherme Palma

O relógio marcava 15h35. O único som que se ouvia na pequena sala era o movimento dos ponteiros e meu coração batendo. E de vez em quando os saltos do sapato da secretária andando do lado de fora do escritório. Era uma espera interminável. Mil pensamentos passavam na minha cabeça, nenhum era confortante. Acho que a demora para ele aparecer era proposital, era a única explicação plausível. Sim, todos que entravam ali aguardavam seu castigo, sua punição, então já entravam ansiosos, nervosos, preocupados, temendo por sua sorte. Ele com certeza estava na sala ao lado tomando um café calmamente e contando piadas como se minha vida nada representasse. E entre uma piada e outra ele devia olhar para o relógio e dizer: “Vou esperar mais um pouco, quem sabe ele não faz xixi na calça”. E todos que estavam ao seu lado deviam rir da minha situação.
De repente uma mulher apareceu na recepção. Eu a escutava abrindo um monte de sacolas e a secretária explodindo em ansiedade. Não acreditei no que ouvia atrás da porta. Ela veio oferecer lingerie para vender. Não era possível, eu pensava. Em um lugar deste? E mais, as mulheres que estavam se derretendo em piadas na outra sala saíram fervorosamente para olharem as mercadorias também. Revoltei-me, como pode? Elas preocupadas com lingerie e eu na sala ao lado em pânico suando em bicas. Será que não se importavam comigo? Elas sabiam do meu destino tirano. Bom, afinal elas podiam até estar se divertindo com minha situação como deve ter acontecido com muitos outros que passaram por aquela temida sala.
“Galinhas”, eu pensava. Já começando a entrar em desespero, pois elas não tinham nada a ver com a minha condição, mas eu tinha que tentar descontar em alguém. O meu consolo é que a vendedora tinha poucas opções de tamanho para aquelas vacas gordas de meia-idade. A secretária, uma universitária e 20 e poucos anos, se deleitava, pois tem um corpinho escultural. Posso ouvir o pensamento da outras invejosas vociferando contra ela. Principalmente porque é a única que atrai os olhares do diretor.
Vaca. Deve ter um caso com ele, pois escutei ele saindo da sala e falando para a secretaria ajudar a escolher uma para a mulher dele. Velho podre, canalha. Comprar lingerie para a esposa? Sei! Pelas medidas que a secretária escolheu eu duvido que seja para a mulher dele, a menos que eu esteja enganado e a esposa do diretor tenha o mesmo manequim da secretária.
Espantei-me com minha capacidade de deixar minha mente fluir numa situação daquelas. Quando entrei não conseguia pensar em, nada, depois de uma espera de 20 minutos já traçava um perfil psicológico de toda aquela corja de sugadores.
Interrompi esses pensamentos e voltei a ter medo, pois escutei ele pigarreando e se preparando para entrar na sala. Entrou e me cumprimentou com um bom dia cordial. Cordial demais para quem estava preste a aplicar a pena máxima em mim. Caso clássico de um filme do Martin Scorsese. Da um “tapinha” nas costas, chama de amigo e depois “BANG”. Ele sentou-se à mesa, veio com aquela velha história de não trair a confiança, que eu nunca deveria ter feito aquilo. E eu me encolhendo na cadeira, não por causa do sermão, mas sim com medo do que viria depois. Para minha surpresa ele não aplicou a pena máxima, melhor ainda, não aplicou pena nenhuma ele só disse:
“Bom espero que isso não se repita, você é um menino inteligente, basta prestar mais atenção na sala de aula, estudar mais em casa e você pode ser um dos melhores alunos da sala de aula.”
“Sim senhor” É tudo que saiu dos meus lábios naquela ocasião, de tanto que eu tremia. E sai ainda com vergonha por ter pensado aquele monte de coisas horríveis do diretor da escola. Ah, sim antes de sair, fiz uma única pergunta, a mais cruel das dúvidas que ficava martelando na minha cabeça:
“O senhor vai contar para minha mãe que eu matei aula?”

Quinta-feira, 28 de Junho de 2007

Esses dias chuvosos

Guilherme Palma


Um ano. 365 dias sem vê-la. Olho para a pista molhada do aeroporto e vejo o reflexo do céu nas poças d'água. Era um dia chuvoso de verão a última vez que falei com ela, como hoje. Mas naquele momento estava sem cair água, como se o céu tivesse ouvido minha prece. Um minuto de paz para a chegada dela, que já estava com um atraso de trinta minutos. Já estava achando muito estranho, pois dias chuvosos não são para chegadas e sim para partidas, para dias tristes.

Como no dia que ela partiu, chovia muito. Desde então não parou de chover na minha vida e de novo no aeroporto chovia exatamente como a um ano, mas não naqueles últimos minutos, pois a chuva tinha dado uma pausa. E entre um pouso e decolagem de aviões, as poças de água na pista tremiam e distorciam a imagem do céu. E nessas tremidas se formavam imagens do passado, e eu podia vê-la sorrindo. Sorrindo quando nós brincávamos na chuva e eu cai um tombo na lama. Sorrindo quando nós fazíamos macarronada ao som de músicas como "Always on My Mind" ou "Let It Be". Eu ainda me lembro com clareza quando eu coloquei no aparelho de som Ludwig Van e ela dançou nua e caiu sorrindo no arbusto e ali mesmo, no jardim, eu me entrelaçei com ela e nos amamos á luz daquele luar de verão. E no outro dia acordei no jardim, ainda sentia o gosto dela na minha boca, do seu perfume, do seu suor. E olhei para ela dormindo nua, toda encolhida de frio pelo frescor da manhã. Com os pelos arrepiados na sua pele clara, os seus mamilos rosados em riste e eu possui ela ali mesmo e novamente nos amamos até o final da tarde.

Alguns meses depois, ela veio com essa história de intercâmbio. Para que inventar isso? Só para estragar aqueles momentos. Mas, tudo bem, nós aguentariamos. Éramos jovens, tinhamos uma vida pela frente. O que significava isso? Nada, apenas algumas pontadas no peito, e também o fato de que me tornaria um ébrio nesses últimos e sombrios meses. Isso é passado, hoje é um dia feliz. É o dia que ela volta, acabando com meu auto-exílio.

Então eu acordei com o cutucão do meu amigo falando: "Chegou o avião dela". Meu coração palpitou, me senti como um adolescente se apaixonando pela menina mais bonita do colégio. Desci correndo as escadas do saguão do aeroporto para chegar até o portão de embarque, mas antes olhei pelo vidro e de longe avistei ela descendo a escada do avião. Estava ainda mais linda que na última vez que a vi, aqui mesmo nesse aeroporto, na despedida chuvosa, ela com os cabelos molhados caindo no rosto, os olhos cheios de lágrimas enquanto meus lábios tocaram os dela.

Preciso parar de sonhar e recordar, acabei de dar um encontrão com uma mulher carregando um mundo de mala e derrubei tudo no chão. Nem podia ajudar ela, sai correndo para o portão e escutei a mulher me xingando. Acontece que eu estava tão extasiado depois de ter visto ela descendo do avião, que não prestei atenção em nada. Mas quando cheguei no saguão vi uma imagem que congelou meu sangue. Ela de mão dada com um polaco e os dois com aliança dourada no dedo. Foi daí que ela me viu. Olhou assutada para mim e eu parado , como um retardado, não conseguia respirar, o ar pesava demais e o pior era a cara de bobo. A família dela ficou muda, sem graça, a situação foi constrangedora, ninguém sabia o que dizer. Eis então, que o noivo dela, o sul-africano rompe o silêncio com um sotaque horrível: "O que estar acontecendo?".

Saí correndo dali, envergonhado, frustrado, traído, com lágrimas nos olhos e quando fui para fora do aeroporto, recomeçou a chuva, mais forte do que nunca. Tão forte como no dia em nos despedimos há um ano e... E mais nada. Essa história nunca aconteceu.

Sábado, 20 de Maio de 2006

Sem inspiração


Guilherme Palma

TUUUUUUUUU...TUUUUUUUU...TUUUUUUUU...TUUUUUUUU...Alô?
_ Oi?
_ Quem esta falando?
_ Ora, sou eu. Para quem você ligou afinal?
_ Também não precisa falar assim. É uma pergunta involuntária, “poxa”.
_ Ta bom então. Mas e aí o que manda?
_ Não sei. Diga você.
_ Como assim? “Diga você”. Quem me ligou foi você.
_ Mas foi você quem falou para mim te ligar na semana passada. Você falou desse jeito: “Liga para mim semana que vem. Quando tiver alguma coisa interessante para falar. Tipo. Sei lá ‘vamo’ bate um papo”.
_ Eu disse isso tudo é?
_ Com todas as palavras.
_ Bom, se eu disse, ta dito. Mas então vai lá, sobre o que quer falar.
_ Não sei. Eu esperava que você me dissesse alguma coisa interessante.
_ Mas se eu falei para você me ligar, como você mesmo afirmou, era para ter me ligado se tivesse alguma coisa interessante para falar. Mas como não tem nada de útil, engraçado, novidade ou mesmo fofoca, porque me ligou?
_ Ah eu sei, mas tipo. Eu pensei que sei lá. Como eu “tava” à toa, mandaria um oi para um amigo. Quem sabe não perderíamos uma meia hora no telefone dando risada.
_ Mas eu acho que essa conversa vai ter de ser adiada então, pois se eu não tenho nada de interessante para falar e você muito menos. Não é?
_ Pois é, parece que sim.
_ Então, o certo mesmo seria deixar essa conversa para outra hora.
_ Você acha mesmo? Não quer nem tentar conversar?
_ Eu acho um esforço inútil, pois não tem clima nenhum para iniciar uma conversa e a conta telefônica só vai subindo.
_ Mas então me diga como você esta então. Tudo certo por aí, na paz?
_ Aqui ta tudo jóia. E você, vai bem?
_ Eu estou bem também. Obrigado por perguntar. Mas você me parece um pouco nervoso.
_ Isso é verdade. Um pouco da velha tolerância zero. Peço desculpas pela agressividade no telefone.
_ Que isso velho? Não tem que pedir desculpas não. Eu entendo, esse mundo ta cheio de cara mala.
_ Pois é.
_ Mas sabe? Eu adorei essa nossa conversa.
_ Também me agradou bastante.
_ Devíamos repetir essa conversa qualquer dia, o que acha?
_ Faz o seguinte então. Liga para mim semana que vem. Quando tiver alguma coisa interessante para falar. Tipo. Sei lá ‘vamo’ bate um papo.
_ Ôôôô legal cara. Valeu então. Fica assim. Semana que vem eu te ligo.
_ Então ta. Mas ó... pensa em alguma coisa interessante para falar hein?!
_ “Pó dexa”. Conversar é comigo mesmo. Um abraço e até semana que vem.
_ Sei, sei. Falou então.
TUTUTUTUTUTU...

Quinta-feira, 22 de Dezembro de 2005

A excursão, o sapo e a experiência macabra

Guilherme Palma

Não sei se todos vocês que estão lendo esse texto vão se lembrar ou saber do que estou falando. Mas imagino que a maioria sim. É sobre a peculiar experiência com um sapo que fazemos na época da escola, entre a 5ª e a 8ª série. O(a) professor(a) leva os alunos para a faculdade e um estagiário maluco do curso de biologia disseca um sapo para a classe inteira assistir.
Lembraram? A experiência consiste em abrir a barriga de um sapo, vivo, pendurar o coração do pobre animal num gancho, uma espécie de anzol. Sem que o mesmo fique separado do corpo. Continua ligado pelas artérias, ou como é chamado no caso dos sapos. E depois ele (o estagiário maluco) fica aplicando adrenalina no coração do nosso colega anfíbio. Apenas para mostrar no gráfico a aceleração do batimento cardíaco do sapo.
Francamente, eu tenho várias lembranças bizarras da minha infância e puberdade, mas essa é uma das mais bisonhas. Até hoje eu não entendo direito o que foi aquele dia. Na época a professora falou para nós:
_ Pessoal! Semana que vem nós iremos ao laboratório de biologia da UEL (Universidade Estadual de Londrina-Pr).
Aquilo para nós foi uma festa, nessa idade que criança não gosta de uma excursão ou passeio? “Oooooooooooooobaaaaaaaaaaaaaaaa” foi a resposta imediata ao convite da professora. Mas jamais imaginei que veria uma cena brutal daquela.
Não vou ser hipócrita a ponto de dizer que não gostei do passeio, claro que gostei. Mesmo porque ente outras coisas dentro do laboratório, nós fizemos uma turnê geral pelo campus. E vimos muitas coisas interessantes. Vimos também os “famosos” cadáveres do laboratório de medicina. Alguns na bandeja em observação e alguns que ficam boiando no formol dentro de um freezer, que inclusive lembra um freezer de bar (Fiquei muito tempo sem tomar refrigerante em bar, devido à semelhança com o freezer da faculdade). Foi outra experiência mórbida que poderia ter sido evitada.
Nós éramos crianças na faixa etária de 11 á 13 anos. Acho que é irrelevante para o nosso futuro ver uma cena daquelas. Mas não quero também ficar choramingando, não foi traumatizante de forma nenhuma. Foi, simplesmente desnecessário, esquisito e incomodo.
Mesmo para os que tinham interesse em fazer medicina, biologia, veterinária, aquilo não serviu de base didática nenhuma. Apenas nos tornou mais mórbidos, incitou-nos a pegar gosto por ver sangue. Eu felizmente não aprecio coisas do gênero, mesmo porque se ver sangue na minha frente eu desmaio.
Esses dias eu me peguei dando risada lembrando dessa experiência macabra realizada com o pobre sapo e resolvi compartilhar com meus fiéis leitores. Acho que já não tão mais fiéis assim, depois de tanto tempo sem postar nada os números de “fãs” que eu tinha, reduziram de uns 15 para 0.
Bom, quem sabe aparece alguém para comentar sobre meu texto. Seja para me xingar, para me dizer que eu sou um ignorante que nem sabe para que serviu essa experiência, ou então para dizer:
“Poxa Guilherme, faz sentido. Agora que você me falou, percebi que realmente não tem porque ver o sapo sendo dissecado. É realmente bizarro”.
BuscaP, lder em comparao de preos na Amrica Latina